Transtornos de personalidade: caminhos para o equilíbrio emocional
“Com acompanhamento, ambiente saudável e relações acolhedoras, é possível viver com qualidade mesmo tendo um transtorno de personalidade.” Renata Soares.
Na coluna Vida Plena – À Luz da Palavra, a entrevista PING-PONG aborda o tema: “Transtornos de personalidade e saúde mental”. Para debater o assunto, conversamos com Renata Salgueiro Santos Soares, 52 anos, terapeuta de famílias, graduada em Direito, Filosofia e Psicologia, pós-graduada em terapia sistêmica, familiar, logoterapia e sexualidade humana, casada com Maurício Soares e mãe de três filhos.
O que são transtornos de personalidade?
São padrões rígidos de comportamento e de experiência interna – pensamentos e emoções – que se consolidam até o final da adolescência. Sofrem influência das experiências de vida e de traumas, embora também possam ter componentes genéticos. Raramente são diagnosticados antes dos 18 anos. Representam a forma como a personalidade do indivíduo se estruturou, se fechou e se estabilizou de maneira mais abrupta com a chegada da vida adulta.
Quais são os principais tipos e suas características?
Os transtornos de personalidade estão descritos no DSM-5 e somam dez, divididos em três grupos. Os excêntricos incluem pessoas mais paranoicas, desconfiadas e racionais, além dos esquizoides, que apresentam dificuldade de integração e relações muito simbióticas. Os dramáticos englobam os antissociais, que frequentemente infringem regras sociais; os borderlines, marcados por histórico de abandono, explosividade emocional, insegurança e episódios de automutilação; os histriônicos, que necessitam ser o centro das atenções; e os narcisistas, caracterizados por ausência de empatia, rigidez emocional e comportamento autocentrado. Já os ansiosos incluem perfis evitativos, dependentes e aqueles com forte necessidade de ordem, como no transtorno obsessivo-compulsivo.
Quais fatores podem causar ou contribuir para o desenvolvimento desses transtornos?
A psicologia explica a formação dos transtornos pelo modelo biopsicossocial. Fatores biológicos e genéticos influenciam, assim como o temperamento associado à forma de criação e, por fim, o ambiente. Um contexto hostil, com vivência de traumas, favorece a cristalização do transtorno. No entanto, não são apenas experiências dolorosas que o geram: é a soma do fator genético, do temperamento e de um ambiente adverso.
É possível prevenir? Como?
A melhor prevenção é um ambiente que promova saúde mental, com boa comunicação, respeito às diferenças e abertura para buscar ajuda psicológica – e medicamentosa, quando necessária – o mais cedo possível. A saúde mental passa pelo brincar, pelo criar e por uma construção da personalidade baseada em acolhimento, necessidades básicas atendidas e relacionamentos sólidos. Cada personalidade é única e precisa ser respeitada.
Quais são os sinais de alerta e quando buscar ajuda?
Os sinais aparecem quando o indivíduo apresenta grande dificuldade de socializar, aprender, amadurecer emocionalmente e comunicar sentimentos, com prejuízo no funcionamento social. Crianças e adolescentes que vivem isolados ou em ambientes muito rígidos, com pouca interação, merecem atenção. O momento certo de buscar ajuda profissional é quando há prejuízo no desenvolvimento do sujeito.
Como funciona o tratamento e qual o papel da família?
O tratamento envolve, muitas vezes, medicação, psicoterapia e apoio à família. O ambiente precisa ser modificado e as relações tornadas mais saudáveis. Não é raro que outros membros da família adoeçam devido à convivência hostil. Por isso, um trabalho sistêmico, que considera a família como um todo e não apenas o indivíduo sintomático, é fundamental.
A família precisa ser sensível à orientação profissional, aberta ao diálogo e disposta a participar do processo terapêutico.
É possível viver com qualidade de vida mesmo com o transtorno?
Sim. Com acompanhamento contínuo, psicoterapia ao longo da vida, possível seguimento psiquiátrico e uma rotina estruturada — boa alimentação, sono regular, atividade física e exposição ao sol — é possível ter qualidade de vida. Em fases mais desafiadoras, estratégias de autorregulação ajudam até que o equilíbrio seja retomado.
Observação: TDAH e autismo não são transtornos de personalidade, mas transtornos do neurodesenvolvimento, com base biológica e neurológica. Não são doenças, e sim formas de funcionamento que precisam ser compreendidas, acolhidas e acompanhadas, permitindo excelente qualidade de vida dentro dos limites de cada indivíduo.
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