Dorme assistindo TV? Veja o que especialista diz sobre o hábito

Maratonar séries e usar telas antes de dormir mantém o cérebro em estado de excitação, prejudica o sono e aumenta riscos como diabetes, depressão e doenças cardiovasculares, alertam especialistas.

Fev 6, 2026 - 14:36
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Dorme assistindo TV? Veja o que especialista diz sobre o hábito

Parece o descanso perfeito: afundar no sofá e deixar a reprodução automática emendar um episódio no outro. Mas enquanto você se diverte com a trama, seu cérebro entra em um estado de emergência silencioso. O hábito de maratonar séries, ou binge-watching, não gera apenas olheiras no dia seguinte; ele dispara um ciclo químico de “vício” e excitação que impede o corpo de desligar.

Segundo Dr. Leonardo Vivas, médico clínico do sono, terminar uma maratona e tentar dormir imediatamente é, biologicamente, como tentar frear bruscamente um carro que está a 140km/h na estrada. E o impacto desse “acidente” na sua saúde vai muito além do cansaço.

Vivemos a era da procrastinação vingativa do sono — um fenômeno onde sacrificamos o descanso para recuperar o tempo livre que perdemos durante o dia. O streaming nos deu o poder de devorar narrativas inteiras em uma noite, e as redes sociais nos viciaram na rolagem infinita.

O resultado? Uma epidemia silenciosa de privação de sono. Mas por que é tão difícil largar o celular e simplesmente fechar os olhos? Segundo o especialista, o problema é que estamos tentando frear um carro em alta velocidade.

O cérebro na via expressa: dopamina e “Core Flow”

A relação entre telas e insônia vai muito além da simples distração ou da luz azul. O problema é químico e de excitação. As plataformas digitais são desenhadas para gerar picos de dopamina (o neurotransmissor da recompensa) e expectativa.

Para Vivas, a tentativa de dormir imediatamente após consumir conteúdo estimulante é fisiologicamente contraditória.

O médico detalha que esse comportamento leva o cérebro a um estado mental conhecido como “core flow state”, marcado por alta excitação e envolvimento emocional.

“Esse estado é sustentado por estímulos sociais e recompensas imediatas, como notificações, que aumentam a motivação implícita e induzem ao craving (um desejo intenso). Isso é ainda pior nas sessões prolongadas (binge-watching), levando à desincronização das atividades corticais e alterações na conectividade entre amígdala e ínsula”, alerta o especialista.

Na prática, esse “motor acelerado” compromete a produção da melatonina, o hormônio fundamental para induzir o sono naturalmente.

Além do cansaço: o risco de infarto e diabetes

Quem dorme mal geralmente se preocupa com o cansaço do dia seguinte. Porém, a conta biológica é muito mais alta e perigosa a longo prazo. A privação crônica não afeta apenas o humor; ela ataca o sistema metabólico e cardiovascular.

“Sem um sono adequado (em quantidade e qualidade), temos maior risco de desenvolver diabetes e dislipidemia (colesterol alto), ficamos mais vulneráveis a infecções e até a sofrer com eventos graves como infartos e acidentes vasculares (derrames)”, afirma Dr. Leonardo.

Além da saúde física, a saúde mental é a primeira a sentir o impacto. “A privação crônica e o sono de má qualidade estão associados à piora do humor, depressão e ansiedade”, completa.

O mito do “Clube das 5 da Manhã”

Na contramão da insônia, surgiu nas redes sociais a cultura da produtividade extrema. Influenciadores pregam que o segredo do sucesso é acordar às 4h ou 5h da manhã para treinar e meditar. Mas será que essa rotina serve para todo mundo?

Para a medicina do sono, essa generalização é um erro grave que ignora a biologia individual.

“Adultos precisam, em média, de pelo menos 7h de sono, mas existem pessoas que precisam de apenas 6h e aquelas que necessitam de 10h. Essa é uma necessidade fisiológica que varia e não se ‘acostuma’ de verdade com a imposição de um horário muito diferente. Há um preço que será cobrado em algum momento”, diz Vivas.

O médico destaca a importância dos cronotipos: existem pessoas naturalmente matutinas e outras vespertinas (que dormem e acordam mais tarde).

“Forçar rotinas, como despertar cedo, para uma pessoa que é naturalmente vespertina, pode estar associado ao desenvolvimento de distúrbios do sono, com repercussões importantes na saúde.”

A regra de ouro: planeje o sono como planeja a dieta

Como sair desse ciclo vicioso na era digital? A solução não é mágica, é estratégica. Segundo o Dr. Leonardo, o erro da maioria das pessoas é tratar o sono como algo secundário, que acontece “se sobrar tempo”.

A Regra de Ouro do Especialista: “Planeje seu sono. Nós criamos estratégias super complexas de atividade física e estamos sempre preocupados com a nossa próxima dieta. Mas e o sono? É deixado ao léu, dorme-se quando der. Supere essa mentalidade e crie um plano: estabeleça um horário para dormir e para acordar, e crie uma rotina que anteceda seu horário de descanso. Leve ambos a sério.”

3 Passos para desacelerar o “carro”:

  1. Defina o horário de “desligar o motor”: Se você quer dormir às 23h, sua rotina de desaceleração deve começar pelo menos uma hora antes.
  2. Saia da via expressa digital: Substitua o streaming e o scroll infinito por atividades de baixo estímulo (leitura física, banho morno, conversas leves).
  3. Respeite seu relógio: Se você não funciona às 5h da manhã, não force seu corpo a viver nesse fuso horário por pressão social. O melhor sono é aquele que respeita a sua necessidade biológica.

privação de sono, binge-watching, saúde do sono, dopamina

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