Além da superação: atleta amputado transforma dor em propósito por meio da fé, do esporte e da gratidão
Atleta amputado Ronan do Espírito Santo conta como transformou uma tragédia em uma vida de propósito, marcada pela fé, pelo esporte e pela gratidão.
Além da superação: quando a gratidão transforma a dor.
em propósito
Na coluna Vida Plena – À Luz da Palavra, a entrevista PING-PONG
aborda o tema “Além da Superação: Uma Vida de Propósito”. Para falar
sobre o assunto, conversamos com Ronan do Espírito Santo, de 51 anos,
morador do bairro Boa Vista, em Belo Horizonte. Atendente de
telemarketing, atleta amputado e exemplo de perseverança, ele compartilha
como transformou uma tragédia em uma trajetória marcada pela fé, pelo
esporte e pela gratidão.
1. Como aconteceu o acidente que resultou na amputação da sua
perna?
Eu tinha 25 anos e havia tirado minha carteira de motorista há apenas três
meses, quando eu e alguns amigos decidimos viajar de moto para
Uberlândia, em 1999. Por imprudência, não descansamos, e o cansaço fez
com que cochilássemos. Estava na garupa e, pela graça de Deus, acordei
antes da colisão, despertei o piloto, mas atingimos a lateral de uma carreta.
Minha perna ficou presa na roda e sofreu um ferimento gravíssimo. Fui
muito bem atendido no Hospital de Clínicas de Uberlândia, mas, devido à
gravidade da lesão, três dias depois foi necessária a amputação da perna
esquerda. O piloto sobreviveu e teve apenas um ferimento no pé esquerdo.
2. Como foi enfrentar a notícia de que sua vida mudaria
completamente?
Até aquele momento eu levava uma vida normal. Ajudava em casa, jogava
futebol e participava de corridas de rua.
No hospital, fiquei nervoso, chateado e triste. Minha preocupação era como
minha mãe receberia a notícia do acidente e da amputação.
3. Qual foi o maior desafio após a amputação?
O maior desafio foi aceitar a nova realidade. Cheguei a questionar Deus,
perguntando: "Por que eu?".
As limitações físicas acabaram não sendo tão difíceis por causa do meu
histórico como atleta. O mais complicado foi reconstruir minha mente e
descobrir qual seria o propósito da minha nova vida.
4. Em algum momento você pensou em desistir? O que lhe deu forças
para continuar?
Sim. Quando ficava sozinho, principalmente durante a noite, dizia que
preferia ter morrido a viver daquela forma.
Minha mãe costumava chamar vizinhos, tentando me fortalecer. Até que
um dia ela mesma se sentou ao meu lado na cama e disse: "Esse problema é
meu e seu. Não tem como colocar na porta dos outros. Nós vamos sair
dessa."
Ela nunca quis que eu fizesse aquela viagem de moto, mas foi a pessoa
mais importante no meu recomeço. Agradeço a Deus todos os dias por ela
ser minha mãe.
5. Como o esporte transformou sua vida após o acidente?
Minha ligação com o esporte começou antes do acidente. Em 1988, eu
praticava futebol de salão e corrida de rua.
Na época, a reabilitação não era tão avançada quanto hoje. Eu fazia
exercícios em casa e, no ano seguinte ao acidente, fui à Associação Mineira
de Paraplégicos (AMP) para buscar informações sobre a carteira de
motorista para dirigir carro. Lá encontrei um grupo jogando futebol com
muletas.
Inicialmente, recusei o convite para treinar. Disse que não me imaginava
como atleta sem uma perna. Então, um dos atletas me respondeu: "Se você
não se exercitar, vai acabar engordando e tudo ficará mais difícil." Ele me
convenceu. Desde então, nunca mais parei.
Em 2005, fui campeão mundial de futebol para amputados com a Seleção
Brasileira. Também fui duas vezes vice-campeão brasileiro pela Associação
Mineira de Desporto para Amputados e uma vez vice-campeão pela AMP.
Depois voltei às corridas de rua utilizando muletas. Minha primeira prova
foi a Volta Internacional da Pampulha, com 18 quilômetros. Durante dez
anos participei de diversas competições, como o Circuito das Estações, a
Corrida do Jornal Super, a Meia Maratona do Zoológico e a Meia Maratona
da Linha Verde.
Em 2010, a empresa onde trabalhava me presenteou com uma prótese
específica para corrida. Foi a realização de um sonho. Depois de oito meses
de treinamento — período em que também pensei em desistir — contei
com o apoio do professor e fisioterapeuta Rodrigo Cunha, da fisioterapeuta
Kelvia e do professor Toninho.
Com a prótese vieram novas conquistas: participei novamente da Volta
Internacional da Pampulha, fui campeão da Corrida da Vale, da Corrida do
Galo, da Corrida Ouro Verde, em Lagoa Santa, segundo colocado na
Corrida do Bairro São Geraldo, campeão do Circuito Mineiro de Corridas,
em 2025, campeão da Corrida Garoto, no Espírito Santo, além de disputar a
Meia Maratona do Rio de Janeiro.
6. Qual foi a maior conquista que o esporte trouxe para sua vida?
Muito mais do que medalhas, o esporte me devolveu a sensação de ser útil
novamente. Também me proporcionou a oportunidade de agradecer,
compartilhar experiências e conhecer muitas pessoas.
7. Que conselho você daria para quem enfrenta perdas ou acredita que
a vida perdeu o sentido?
Quando encontro alguém pensando em desistir, costumo dizer: é um direito
seu desistir, se quiser. Mas, antes, pense em Deus e em uma pessoa que
você ama profundamente. Com certeza, essa pessoa gostaria muito de ver
você vencendo.
8. Que mensagem resume sua história de vida?
É preciso ter fé e compreender que a gratidão não apaga a dor, mas ela
impede que a dor apague todo o resto.
É isso que nos mantém firmes no propósito e faz valer a pena continuar.
Quando agradecemos, nossa mente muda o foco. Ela deixa de olhar para
aquilo que faltou e passa a enxergar o que permaneceu. E é com o que ficou
que conseguimos reconstruir nossa vida.
Qual é a sua reação?













